O Sofrimento de Adultos com TDAH
Muitos acham que é uma “doença inventada”, outros confundem
com desleixo, mas o fato é que existe uma enorme quantidade de adultos que são
portadores do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade e nem sequer
tomam conhecimento disso. Estou escrevendo esse post devido ao considerável
número de pacientes que vem até meu consultório com queixas similares ou que se
consideram portadores desse transtorno que, por muitas vezes, pode diminuir
drasticamente a qualidade de vida de uma pessoa, tanto no seu convívio de
trabalho quanto familiar.
O portador de TDAH acima de tudo sofre bastante em suas
tarefas diárias. Chega sempre atrasado aos compromissos, mesmo que tenha tempo
suficiente ou que tenha acordado na hora certa, enfrenta dificuldades para ficar
dentro de uma sala de aula ou participar de reuniões, não consegue se
concentrar adequadamente para os estudos, acha “um parto” realizar tarefas
burocráticas, deixa sempre o que pode ser realizado hoje para depois de amanhã
(de madrugada), deseja ter um controle remoto para acelerar a aula daquele professor
que fala lentamente e sente uma enorme vontade de falar para aquele amigo que
conta uma história muito devagar: “pode resumir tudo em 5 segundos, por favor?”.
É engraçado falando assim, mas pode ser devastador.
Conheço bem esse comportamento porque acompanhei por muitos
anos um paciente assim: eu mesmo. Antes de ser médico eu fiz faculdade de
engenharia civil e sofri bastante. Chegava sempre atrasado às aulas, isso
quando eu chegava, porque muitas vezes eu ia até a porta e simplesmente dava
meia-volta para curtir uma coca-cola na cantina e olhar para o horizonte. Inúmeras
vezes eu chegava na sala e via aquele agito dos alunos, era mais uma prova que
seria feita sem eu saber que tinha prova! Vocês podem imaginar o tamanho do
sofrimento? Eu deixava para estudar um dia antes das provas (quando eu sabia
que ia ter), com apostilas e livros cujas matérias eu não acompanhei nas
aulas. Um TDAH é acima de tudo um auto-didata e se orgulha disso, como se ele
tivesse escolha. Mas em uma coisa o TDAH leva vantagem em relação à pessoa “normal”:
quando consegue prestar atenção, supera as expectativas.
Só depois de muitos anos sendo tachado como o maluco ou como
fanfarrão eu comecei a me atentar para o fato de que tudo isso que acontecia comigo era
um transtorno e eu precisava tratar essa “praga” de alguma maneira. Concentrei-me em me concentrar, dessa maneira
a faculdade de medicina foi muito menos dolorida para mim do que a anterior.
Sem traumas, sem me achar burro, sem “provas surpresas”, mas sempre foi “um dia
após o outro”, como um alcoólatra tentando não beber. Tive algumas recaídas,
mas no fim deu tudo certo.
Depois de alguns anos, pensei estar livre desse transtorno,
porém meu filho, que tem 8 anos de idade, é um super TDAH. Agora eu vejo mais
claramente por tudo o que eu passei na minha infância e não lembrava direito.
As perguntas que ele não responde na primeira vez, a dificuldade na escola, a
diretora nos chamando toda semana para relatar alguma barbaridade que ele fez, a
falta de sono, a destreza no vídeo-game, o agito durante o dia e durante a
noite.
Na minha época o diagnóstico era “menino maluco” e o tratamento
era surra de chinelo de 8 em 8 horas, mas a sorte do meu filho é que ele foi
diagnosticado com outro problema. Hoje estou tratando meu filho com a mal
compreendida “Ritalina”,e ele mudou da
água para o vinho. Ele simplesmente chegou ao terceiro ano sem saber ler nem
escrever e seus colegas de turma, no começo do ano já estavam na “interpretação
de texto”. Agora, em 3 meses de tratamento, ele já está escrevendo em letra
cursiva e lendo textos que eram hieróglifos antes.
Mas antes que você que tem TDAH pare de ler esse texto “enorme”,
vou resumir tudo em 5 segundos: É claro que hoje em dia existem muitos casos de
diagnósticos feitos pelo seu vizinho dizendo que esse ou aquele é hiperativo, e
tem opiniões que digam que hiperatividade é uma invenção moderna e quem
inventou tem que levar uma surra de havaianas de pau. Mas o fato é que um grande
número de pessoas vê suas vidas minadas diariamente, acham que o dia acabou e
não fez nada, esquecem de pagar a conta que estava em algum lugar e desapareceu
misteriosamente “mas vou pagar amanhã”. Essas pessoas necessitam entender
melhor seu problema e precisam de ajuda, pois só quem passa por isso sabe como
é difícil tentar se enquadrar na vida “normal”, tentar assistir aula, tentar
estudar antecipadamente, tentar dormir em um horário adequado para as suas necessidades, tentar não
ter um milhão de pendências, tentar não olhar para o lindo dia de Sol no meio
da reunião, dentre outras coisas.
O diagnóstico de TDAH é feito através de anamnese, e isso
não é realizado por “achismo”,há vários critérios diagnósticos a serem
preenchidos pelo paciente. Mas uma coisa é certa: ele existe e muitas pessoas desconhecem
que o tem.
