sábado, 4 de julho de 2015

5 Opiniões "Jeniais" Sobre a RITALINA.

Acabei de ver na televisão uma reportagem sobre Ritalina. Me dá desgosto de ouvir a opinião de leigos sobre o assunto. Vou citar algumas opiniões "Jeniais" dos sabichões pelo Brasil:


"a Ritalina tem o mesmo efeito que a cocaína"



sério? sério mesmo? Você já imaginou uma criança com hiperatividade cheirada? Se uma criança com hiperatividade, como meu filho, cheirar cocaína ele deve dar umas duas voltas no mundo sem parar. Isso é um efeito completamente contrário do proporcionado pela Ritalina! Então por que falar uma asneira dessa em horário nobre? Por que, em nome de Deus, uma pessoa comete uma reportagem dessas? 



"a droga da obediência"



Essa afirmação me dá vontade de fazer igual nosso saudoso Alborghetti: pegar um cacetete e arrebentar a mesa de tanta bater.

Os efeitos da Ritalina duram pouco, algumas horas, nesse momento a criança fica mais atenta, mais concentrada, mas ela não perde a "rebeldia", a imaginação, senso de humor ou criatividade. Ela continua sendo ela mesma, porém com uma capacidade de concentração dentro do considerado normal para crianças da mesma idade! 


Essa eu peguei a frase inteira: 



"A criança dá trabalho, questiona muito, viaja nas suas fantasias, se desliga da realidade. Os pais se incomodam e levam ao médico, um psiquiatra talvez.  Ele não hesita: o diagnóstico é déficit de atenção (ou Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH) e indica ritalina para a criança."



hahaahahah!! Imaginem! 



- meu bem, esse nosso filho está muito viajandão, muito divertido e brincalhão e ainda por cima o sacaninha está querendo me questionar. Vamos levar ao médico essa peste.



Chegando no médico:



Pai :-oi, doutor, meu filho...



Doutor: -é TDAH!! pronto! Dê Ritalina para esse moleque questionador! Ele não deve ser tão divertido e questionador assim!

Iça!! mais um diagnóstico de TDAH!! 


Sério? O que o autor dessa "jenialidade" entende de diagnóstico de TDAH? Quantas consultas ele já acompanhou será para poder emitir tão célebre opinião? Será que ele tem ideia de como é feito um diagnóstico de TDAH? será que ele tem credibilidade para ficar dando sua opinião pessoal sobre o medicamento? 



"a Ritalina ameaça a saúde de milhões de crianças"



É? por que? Que ameaça é essa? Pode citar um caso de saúde prejudicada? Caso comprovado, ok? Sem essa de "minha amiga da igreja falou que o filho do amigo do vizinho..."



"concurseiros usam Ritalina para estudar"



JJJênio!!

E eu pensando que eles usavam para dirigir ou jogar futebol! Esses concurseiros! Sempre surpreendendo! 
Será que esse povo tem ideia do que é estudar para um concurso? Será que eles imaginam como a cortina da sala balançando fica interessante para quem tem TDAH e tenta estudar mais de 4 horas por dia? E a geladeira? O video-game? Eu, por exemplo, já fui 4 vezes na geladeira para conferir a Coca Cola (que também tem o mesmo efeito que cocaína de acordo com entendedores de assuntos gerais) só para escrever esse texto.  


E essa receita amarela "A", qual a motivação disso? Qual critério a tão odiada "ANVISA" usou para que a Ritalina seja prescrita só nessa receita tão difícil e burocrática de se obter? Eu vou na farmácia comprar Ritalina para meu filho com minha receita, com meu carimbo de médico, e ainda me olham com cara de desconfiança! Como se eu estivesse burlando alguma regra, alguma lei. Uma farmácia chegou a me negar a compra do medicamento porque faltava uma declaração escrita explicando os motivos para os quais eu estava receitando Ritalina, essa declaração deveria constar o CID e a posologia. Para que isso? Que grupo é esse ao qual eu devo subordinar meus diagnósticos??



 Eu já trabalhei em unidade de saúde, e sei o que é uma mãe desesperada porque seu filho já reprovou 2, 3 vezes de ano por não ter um diagnóstico de seu transtorno. 

Eu prescrevia com minha receita Ritalina para casos de TDAH, porque na rede pública essas crianças são ignoradas. Para conseguir uma receita amarela "A" a criança tinha que esperar 6 meses para uma consulta! Isso tudo porque a Anvisa impôs barreiras para a obtenção do medicamento muitas vezes intransponíveis para famílias mais necessitadas.


Outra coisa que está acontecendo no Brasil, é que um adulto que tem esse transtorno e precisa estar focado por causa de trabalho ou mesmo estudos, muitas vezes se vê obrigado a comprar medicamento contrabandeado tamanha a restrição que é feita no país, tudo em nome da sua "segurança". A ANVISA se acha no direito de ser babá do povo, de escolher o que cada um deve usar, de indicar qual medicamento é liberado e qual é demonizado. Como se o médico não soubesse o que está fazendo e como se o paciente não pudesse escolher se vai ser tratado com esse medicamento ou não! 

Enquanto nós vivermos em um país em que a grande maioria da população, orientados pela televisão, acham que as imposições de uma entidade como a ANVISA são aceitáveis, e que os adultos não podem responder pela segurança do seu próprio corpo, vão continuar existindo pessoas fazendo tráfico de medicamentos por aí.







domingo, 14 de junho de 2015

A RITALINA E O TDAH

O Sofrimento de Adultos com TDAH



     
      Muitos acham que é uma “doença inventada”, outros confundem com desleixo, mas o fato é que existe uma enorme quantidade de adultos que são portadores do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade e nem sequer tomam conhecimento disso. Estou escrevendo esse post devido ao considerável número de pacientes que vem até meu consultório com queixas similares ou que se consideram portadores desse transtorno que, por muitas vezes, pode diminuir drasticamente a qualidade de vida de uma pessoa, tanto no seu convívio de trabalho quanto familiar.
      O portador de TDAH acima de tudo sofre bastante em suas tarefas diárias. Chega sempre atrasado aos compromissos, mesmo que tenha tempo suficiente ou que tenha acordado na hora certa, enfrenta dificuldades para ficar dentro de uma sala de aula ou participar de reuniões, não consegue se concentrar adequadamente para os estudos, acha “um parto” realizar tarefas burocráticas, deixa sempre o que pode ser realizado hoje para depois de amanhã (de madrugada), deseja ter um controle remoto para acelerar a aula daquele professor que fala lentamente e sente uma enorme vontade de falar para aquele amigo que conta uma história muito devagar: “pode resumir tudo em 5 segundos, por favor?”. É engraçado falando assim, mas pode ser devastador.
      Conheço bem esse comportamento porque acompanhei por muitos anos um paciente assim: eu mesmo. Antes de ser médico eu fiz faculdade de engenharia civil e sofri bastante. Chegava sempre atrasado às aulas, isso quando eu chegava, porque muitas vezes eu ia até a porta e simplesmente dava meia-volta para curtir uma coca-cola na cantina e olhar para o horizonte. Inúmeras vezes eu chegava na sala e via aquele agito dos alunos, era mais uma prova que seria feita sem eu saber que tinha prova! Vocês podem imaginar o tamanho do sofrimento? Eu deixava para estudar um dia antes das provas (quando eu sabia que ia ter), com apostilas e livros cujas matérias eu não acompanhei nas aulas. Um TDAH é acima de tudo um auto-didata e se orgulha disso, como se ele tivesse escolha. Mas em uma coisa o TDAH leva vantagem em relação à pessoa “normal”: quando consegue prestar atenção, supera as expectativas.
      Só depois de muitos anos sendo tachado como o maluco ou como fanfarrão eu comecei a me atentar para o fato de que tudo isso que acontecia comigo era um transtorno e eu precisava tratar essa “praga” de alguma maneira. Concentrei-me em me concentrar, dessa maneira a faculdade de medicina foi muito menos dolorida para mim do que a anterior. Sem traumas, sem me achar burro, sem “provas surpresas”, mas sempre foi “um dia após o outro”, como um alcoólatra tentando não beber. Tive algumas recaídas, mas no fim deu tudo certo.
      Depois de alguns anos, pensei estar livre desse transtorno, porém meu filho, que tem 8 anos de idade, é um super TDAH. Agora eu vejo mais claramente por tudo o que eu passei na minha infância e não lembrava direito. As perguntas que ele não responde na primeira vez, a dificuldade na escola, a diretora nos chamando toda semana para relatar alguma barbaridade que ele fez, a falta de sono, a destreza no vídeo-game, o agito durante o dia e durante a noite.
      Na minha época o diagnóstico era “menino maluco” e o tratamento era surra de chinelo de 8 em 8 horas, mas a sorte do meu filho é que ele foi diagnosticado com outro problema. Hoje estou tratando meu filho com a mal compreendida “Ritalina”,e  ele mudou da água para o vinho. Ele simplesmente chegou ao terceiro ano sem saber ler nem escrever e seus colegas de turma, no começo do ano já estavam na “interpretação de texto”. Agora, em 3 meses de tratamento, ele já está escrevendo em letra cursiva e lendo textos que eram hieróglifos antes.
        Mas antes que você que tem TDAH pare de ler esse texto “enorme”, vou resumir tudo em 5 segundos: É claro que hoje em dia existem muitos casos de diagnósticos feitos pelo seu vizinho dizendo que esse ou aquele é hiperativo, e tem opiniões que digam que hiperatividade é uma invenção moderna e quem inventou tem que levar uma surra de havaianas de pau. Mas o fato é que um grande número de pessoas vê suas vidas minadas diariamente, acham que o dia acabou e não fez nada, esquecem de pagar a conta que estava em algum lugar e desapareceu misteriosamente “mas vou pagar amanhã”. Essas pessoas necessitam entender melhor seu problema e precisam de ajuda, pois só quem passa por isso sabe como é difícil tentar se enquadrar na vida “normal”, tentar assistir aula, tentar estudar antecipadamente, tentar dormir em um horário  adequado para as suas necessidades, tentar não ter um milhão de pendências, tentar não olhar para o lindo dia de Sol no meio da reunião, dentre outras coisas.

      O diagnóstico de TDAH é feito através de anamnese, e isso não é realizado por “achismo”,há vários critérios diagnósticos a serem preenchidos pelo paciente. Mas uma coisa é certa: ele existe e muitas pessoas desconhecem que o tem.